O Pediatra e a Obesidade Infantil

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O Pediatra e a Obesidade Infantil

Raquel Pitchon dos Reis

Presidente da Sociedade Mineira de Pediatria

A incidência e a prevalência da obesidade na infância e adolescência vêm crescendo na maior parte do mundo. Estudo publicado recentemente na revista médica Lancet, por Steven Grover e colaboradores, mostra que a obesidade está associada a um risco aumentado de desenvolver doença cardiovascular, incluindo doença cardíaca, acidente vascular cerebral e diabetes. O estudo constatou que indivíduos obesos podem viver até oito anos a menos do que pessoas com peso normal. Sobre os anos de vida saudável, a análise mostrou que pessoas com sobrepeso e obesidade vivem de seis a doze anos com doenças crônicas.

Muitos países, como o nosso, vivem ainda o contraste entre subnutrição e supernutrição e necessitam de políticas específicas para essa abordagem. Alguns poucos resultados positivos são percebidos em países que implementaram políticas públicas a favor da alimentação equilibrada, mas esta não se sobrepõe à oferta de produtos altamente industrializados e açucarados.

A prevenção contra a obesidade começa intraútero, uma vez que as crianças nascidas de mães obesas têm uma chance maior de serem crianças e adultos obesos, de desenvolverem doenças cardíacas e diabetes.

Os estudos sobre as causas da obesidade apontam que a exposição repetida a alimentos altamente processados e a bebidas açucaradas durante a infância, constrói preferências de gosto, fidelidade à marca e lucros industriais elevados.

Será que nós pediatras podemos contribuir mais para a melhora desses índices assustadores? Certamente a sociedade civil poderá estimular e criar ambientes alimentares mais saudáveis que a indústria alimentícia. Diante dessa realidade, a SMP lançará em abril, durante o Congresso Mineiro de Pediatria, a Campanha de Prevenção contra a Obesidade.

Realizamos diversas reuniões com a participação de diferentes segmentos para definirmos os fundamentos da Campanha, sob a coordenação do nosso comitê de Endocrinologia, representados pelos professores Antônio Chagas e Ivani Silva. Após várias reflexões, concluímos que, apesar de ser um problema crônico e de difícil prevenção e tratamento, a campanha deveria ter cunho positivo. Nesse contexto, nós pediatras temos papel fundamental na valorização e estímulo ao aleitamento materno, no controle do crescimento e dos índices de massa corporal, e no alerta à família quando se iniciam os desvios. Cuidados para não promover ou estimular o bullying que os obesos já enfrentam no seu dia a dia; estimular as atitudes para mudança dos hábitos alimentares e a promoção da atividade física; envolver os mais diversos segmentos sociais; abordar os diferentes aspectos sócio-psico-emocionais; e valorizar a importância da afetividade e dos vínculos familiares serão outros pontos principais.

A criança obesa é uma vítima do estímulo ao consumismo alimentício e dos maus hábitos de vida impostos pela sociedade moderna. Apenas a mobilização conjunta da família, escola, pediatras e da Saúde Pública poderão garantir um futuro melhor para elas.