Dia Mundial do Autismo - 2/4

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Em 02 de abril, é comemorado o Dia Mundial da Conscientização do Autismo e a Sociedade Mineira de Pediatria (SMP) faz uma homenagem às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), suas mães, pais, familiares e toda rede multiprofissional que assiste essas crianças, adolescentes e adultos. 

No vídeo, a SMP apresenta trechos da carta da pediatria Flávia Cristina de Carvalho Mrad para seu filho Felipe, em seu aniversário de 15 anos. Em um relato emocionante, ela conta um pouco de sua história como mãe de uma criança com autismo grave, da descoberta às conquistas. Tudo compartilhado com seu marido o pediatria Márcio Fonseca e o filho mais novo Arthur. 

Confira a Carta na íntegra:



Felipe

Dia 15/06/2005

Você nasceu às 7:37h. Como esperei por esse momento.

Com alguns meses de vida, achava que você era um pouquinho tranquilo demais. Não virava na cama, mas sorria muito. O tempo foi passando e você não apontava ... e os tão esperados mamãe e papai não foram falados.

Não brincava como as outras crianças, não fantasiava. Por volta dos 3 anos, ao estudar mais profundamente a síndrome de Down, tema do meu mestrado, li pela primeira vez minuciosamente sobre o autismo. Lembro-me que olhei para você e chorei. As respostas apareceram: você, meu filho, meu mundo era autista. O diagnóstico veio quase 1 ano depois.

Não há como expressar meus sentimentos naquele dia. Acho que a sensação inicial foi de insegurança total. Insegurança por não ter certeza do que ser autista significaria, que limitações isso iria impor: você iria falar ? Ler ? Ter uma vida independente? Ser feliz ? Essas perguntas rodavam dentro da minha mente .

Entrei em um luto e não me via saindo dele. Alguém precisava me mostrar a luz no fim do túnel e meus amados Marcio e Arthur, minha família maravilhosa e os poucos amigos que me estenderam a mão foram fundamentais para isso. Após a saída do luto, que durou uns 2 meses, veio o desespero intenso e com ele a busca da cura que não existia. Cenário perfeito para oportunistas, que tentaram me convencer que a cura prometida e não alcançada era minha culpa e do papai Márcio.

Com o passar do tempo, aprendi que as incertezas, os medos, as angústias não passarão nunca, mas aos poucos vou me acostumando a viver com esses sentimentos. Sinto que minha realidade está em um mundo paralelo ao das outras pessoas, nem melhor, nem pior, somente diferente.

E sou feliz em muitos momentos. Ainda preciso trabalhar o medo de morrer e deixar você, meu Felipe. Parar de pensar muito no futuro e viver o hoje como deveria. Luto diariamente para reorganizar isso na minha mente.

Hoje com 15 anos, você é um vencedor, pois além do espectro, precisa se adaptar dia a ia a uma uma doença óssea rara. Fala o que precisa, ainda não sabe ler, mas o papai Márcio tem ser tornado um grande professor. Não sabe ainda se vestir e tomar banho sozinho. Mas você conseguiu o principal: interage e consegue demonstrar amor e saudade a quem ama, abraça, beija com o rosto, dança, quer atenção. Surpreende, como há 1 semana atrás, quando participou de uma reunião virtual familiar com suas músicas e danças esteriotipadas. E ressalto que muitas pessoas maravilhosas foram ajudando você nesse caminho e tem feito a diferença como a Tia Patrícia, Tia Giselle , Tia Sol, Tia Verusckha e, atualmente, a Família NAERA.

Confesso a você, meu filho, que tenho um grande sonho a realizar que me acompanha há muito tempo: sentar em uma pizzaria com você, papai Márcio e Arthur, pedir, esperar e comer uma pizza de marguerita, apreciando o momento. Espero que se realize rápido. Quem sabe após o isolamento terminar ....

Por fim, agradeço imensamente a você, meu filho, pois acredito que consigo a cada dia me tornar uma pessoa melhor em vários aspectos. Aceito melhor a diversidade, tento ser mais tolerante, enxergo o outro de uma maneira menos preconceituosa e dou mais valor a pequenas coisas. Você me tornou uma mãe mais forte, que já consegue em muitos momentos perguntar:

Porque NÃO eu ?? Assim, substituindo a pergunta mais fácil: Porque eu ?

Acho que escrevi demais.

Nesse momento, peço licença a você meu filho, para representa-lo e agradecer a toda a família e aos amigos que sempre o amaram em todos momentos, a alguns profissionais exemplares que nos momentos extremante difíceis, o respeitaram como indivíduo e deram a você o apelido carinhoso de Nosso Anjo Azul, Nosso Gigante do Amor.

Parabéns meu filho !!!

Que você seja muito feliz e que consiga viver nesse mundo tão complicado e avesso ao que não é “normal “ e assim, tornar-se menos invisível.

Flávia Cristina de Carvalho Mrad

pediatra, instrutora do Curso de Reanimação Neonatal da SMP, mãe de Felipe e Arthur