Simpósio da SMP destaca papel do adolescente no mundo

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25/06/2021



Em 19 de junho, sábado, a Sociedade Mineira de Pediatria (SMP) realizou o simpósio “Adolescências: invenções possíveis”. O evento com mais de cinco horas de duração reuniu pediatras, médicos, profissionais da saúde, psicólogos, estudantes e entidades representativas dos direitos do adolescente para trocar experiências e instigar discussões sobre o lugar do adolescente na saúde e na vida. Com uma programação científica diversa e sensível, o Simpósio contou com a realização de mesas com especialistas e atuantes na defesa da saúde e bem-estar dos adolescentes, passando pelos eixos de questões trazidas à tona pela pandemia da Covid-19, pela saúde sexual e desenvolvimento de identidade de gênero, como também as políticas públicas que englobam essa população.

Na abertura do evento, a pediatra Eleonora Druve, diretora científica da SMP, saudou o público presente e os convidados das mesas. Em suas palavras lembrou que: “nós como pediatras e profissionais de saúde que lidamos com os adolescentes sempre nos deparamos com todos os desafios próprios desse período tão importante, com muitos lutos próprios, principalmente nesse período da pandemia que vem cercado de lutos materiais, por perdas de membros, por perda do espaço da escola, a necessidade de distanciamento de colegas e privação da sociabilidade, que é tão importante para o estabelecimento de laços sociais e afetivos”.

Em continuação, a pediatra Cristiane de Freitas Cunha Grillo, presidente do Departamento Científico de Adolescência da SMP e organizadora do Simpósio, frisou a importância de se discutir a saúde do adolescente. Segundo ela, a puberdade é um momento de transição chave em que o adolescente se encontra em um percurso de estranhamento e autodescoberta, tendo que lidar com o florescer de uma sexualidade e com o trauma da aproximação da morte que constitui o abandono da infância. Para ela, “a puberdade evidencia então a estranheza de sermos corpos falantes, desencontrados da nossa imagem, das palavras e confrontados com esse real do sexo e da morte, entre essas duas metamorfoses. O adulto pode se angustiar e recusar esse encontro. Pode nomear o adolescente em uma tentativa fracassada de aprisionar o gozo que nos torna pessoas nos corpos e nas palavras. Pode tentar controlar os adolescentes pela via da medicalização e da judicialização. Pode desistir do adolescente e desistir do encontro. Isso marca nossa presença e o título do nosso evento, para que possamos enxergar as adolescências, instigá-las e superá-las depois de haver aprendido a suportar a sua própria estranheza”.

Ponto alto

Em meio a importantes falas sobre o adolescer, principalmente sobre a compreensão da transsexualidade, o Simpósio apresentou a mesa “Experiências no campo da adolescência, família e políticas públicas” com o relato do estudante no terceiro ano do ensino médio e militante pelos Direitos Humanos, Caio Gouveia. Ele contou sobre sua experiência de descoberta e transição de gênero durante a adolescência a partir de três pilares que ele considera essenciais na discussão sobre respeito à diversidade e acesso aos Direitos Humanos por pessoas trans: relação familiar, o lugar da educação e a relação com os profissionais da saúde.

“Sou filho de uma militante que antes de me ter já estava lutando pelos Direitos Humanos e se tornou ainda mais orgulhosa quando eu me reconheci como trans masculino aos 13 anos. Eu tenho que agradecer à minha família, minha mãe, avó, tia e as mulheres incríveis que junto dos meus amigos, amigas e amigos foram as minhas grandes referências”, disse Caio. Em relação ao acesso à saúde e acolhimento, Caio nos lembra sobre a importância e o dever da medicina e demais áreas do conhecimento estarem preparadas de forma ampla para conseguir humanizar as pessoas trans. “A maioria das pessoas e dos profissionais tentam agir para me apagar, para me invisibilizar mesmo. Eles insistem em querer me dizer que eu sou outra coisa. Que eu não existo. É literalmente isso que eu sinto que existe, em sua maioria, na área da saúde: pessoas empenhadas em patologizar o meu corpo ao invés de compreender e oferecer tratamento humanizado”.

A arte salva vidas

Finalizando o evento, os artistas Thereza Portes, do Instituto Undió e Ronald Nascimento, do Studio Beco, apresentaram suas experiências com arte e juventude. Thereza está à frente do Instituto Undió desde 1982, desenvolvendo um trabalho de arte e educação no aglomerado Santa Lúcia. E foi neste Instituto que Ronald se descobriu artista, primeiro com o grafite e depois com a fotografia. E foi Ronald, com sua experiência, que definiu o espírito da última discussão do Simpósio: “a arte é vida”.